A incrível história dos videoclipes (1975-2007)

“É preciso prestar mais atenção aos videoclipes!”, esbraveja Arlindo Machado no seu livro Televisão levada a sério. Tem razão: já há alguns anos, a indústria cinematográfica tem se voltado aos diretores e produtores dos music-videos em busca de novas idéias. De novas linguagens a novas estéticas, o videoclipe é o vídeo experimental das grandes massas. Ao contrário das experiências audiovisuais das gerações passadas, as brincadeiras com videoclipes não ficam presas aos porões dos depósitos das universidades. Nada disso: aqueles mais inovadores são os videoclipes mais vistos, mais comentandos e mais premiados.

A lista de cineastas oriundos do videoclipe é extensa: Spinke Jonze, Michel Gondry, Stephane Sednaoui, Anton Corbijn, Johathan Glazer – só para citar alguns. O caminho inverso também foi exaustivamente trilhado: John Landis, Win Wenders, Jim Jarmusch, Martin Scorsese, Brian de Palma e Ridley Scott já fizeram peripécias no formato. Não é para menos: algo que uma indústria como Hollywood não possui é liberdade criativa – exatamente o que bandas revolucionárias como The Chemical Brothers, Björk, R.E.M. e Rage Against the Machine idolatram. Estes grupos atraem para si diretores (consagrados ou não) a fim de experimentarem com uma estética de vanguarda.

CAMINHANDO COM O DIABO

Está certo que na década de 1920 cineastas como Dziga Vertov (O homem com a câmera) e Walther Ruttman (Berlim: Sinfonia da metrópole) já experimentavam com a linguagem cinematográfica, desencaixando a montagem da linearidade narrativa importada da literatura e do teatro. Ambos buscavam criar uma espécie de narrativa própria do cinema, sem se prender aos cânones importados das outras formas de arte. Uma narrativa onde a imagem contivesse em si mesma toda a mensagem que o cineasta desejava passar.

Mas, se houve um homem que pela primeira vez atingiu este objetivo com perfeição, este homem foi Kenneth Anger. Dançarino, ator, videomaker, historiador de celebridades, mago, fofoqueiro, bandido, persona non grata em Hollywood: Kenneth Anger já foi de tudo um pouco. Seguidor de Aleister Crowley, Kenneth Anger filmou aos 17 anos Fireworks, com forte apelo ocultista.

Já neste seu primeiro trabalho, a busca por uma narrativa não calcada na linearidade está presente: a montagem é psicodélica, quase surreal, e uma cena vai dando lugar a outra sem sentido aparente. Tudo envolto de música, composta especialmente para o curta, que vai dando o tom do que é expresso na tela. Em nenhum dos filmes de Anger – ainda hoje na ativa – existem diálogos; todo o áudio é composto de música.

Kenneth Anger: o diabo e todo seu esforço para popularizar o videoclipe

A cria mais famosa do cineasta maldito é Lucifer Rising. “Contando” a invocação do próprio diabo por vários personagens dispersos no espaço e no tempo (Osíris e Íris, um aprendiz de mago, uma sacerdotisa, etc), Lucifer Rising tem cara, cheiro e jeito de videoclipe. As imagens coloridas sucedem-se rapidamente: um olho de crocodilo vira uma bolha de lama; um bolo de aniversário vira um disco voador; as cores do robe de Lúcifer fundem-se com o sangue de suas vítimas; um mago rodopia dentro de um pentagrama até que vira um de seus discípulos; numa casa-labirinto, corredores juntam-se num balé infernal. Tudo regido pela bela música de Bobby Beausoleil – assassino confesso de Sharon Tate e um dos membros da família Manson.

O REI DO POP

O segundo álbum solo de Michael Jackson, lançado em 1982 – três anos após Off the Wall – é até hoje o disco mais vendido na história da indústria fonográfica. Com sete de suas nove faixas tendo chegado às lojas na forma de compacto e com três músicas conquistando o topo das paradas, Thriller é um marco na música pop. Também o é na história dos videoclipes.

Um ano antes do lançamento de Thriller, estreava na televisão norte-americana um canal com um novo conceito televisivo: a Music Television, ou MTV. A combinação entre videoclipes, VJs jovens com comentários irreverentes, notícias e documentários sobre bandas ajudou a popularizar o canal entre a audiência jovem, criando todo um estilo de vida calcado na sua transmissão.

Mas nada disso teria sido possível sem Michael Jackson. Com videoclipes inovadores, Michael Jackson transformou a forma de se pensar videoclipe. Se antes os videoclipes eram meros pastiches de imagens que faziam algum tipo de referência à música, a partir dos clipes de Billie Jean e Beat it, houve uma aproximação formal do videoclipe com o cinema, através do conceito de enredo.

Abusando da lenda de Midas, Billie Jean “conta” a história de Michael Jackson, o artista Pop que transforma em ouro tudo que toca – uma metáfora para a própria carreira do astro. Apesar de não ser um filme narrativo – ou um curta-metragem – propriamente dito, o clipe resolve-se todo em torno da mesma idéia. Uma inovação pra época.

Thriller, dirigido pelo cineasta John Landis, fez a façanha de estrear no cinema antes de ir ao ar na MTV

O clipe mais famoso do disco de Jackson é o homônimo Thriller. Esse sim, muito mais curta-metragem do que videoclipe, é assinado pelo consagrado diretor John Landis (de Um lobisomem americano em Londres) e narrado pelo ator Vincent Price (ícone dos filmes de horror britânicos da Hammer, mas também conhecido por seu papel como Cabeça-de-Ovo na série dos anos 1960 de Batman).

Thriller tem tudo de filme narrativo: além do enredo, apresenta personagens principais, um letreiro de apresentação, créditos finais, etc. Para além de transformar clipes em curta-metragens (realmente um gênero pouco explorado nos videoclipes), sua contribuição mais importante para essa “arte” televisiva foi subverter a música ao clipe, e não o clipe à música. Thriller – a música – foi “desmontada” e remixada conforme as indicações de Landis para o clipe. Assim, a música do clipe é bastante diferente daquela encontrada no disco: por exemplo, o refrão só é ouvido uma vez no clipe.

O trabalho de Michael Jackson resume-se num mundo metafórico, belo e inocente só seu. Ao introduzir a linearidade de narrativa nos videoclipes –ainda que sem todas as convenções literárias e cinematográficas – Jackson dedicou-se a explorar seus próprios sonhos em forma de imagem. O resultado é um vasto compêndio de imagens que influenciaria muitos diretores nas décadas seguintes.

O VIDEO ATINGE A MATURIDADE

Arlindo Machado considera que o videoclipe mais interessante é aquele que “nasce de uma sensibilidade renovada e de uma decisão crítica nos planos musical e audiovisual ao mesmo tempo”. Sâo três os diretores que, nos anos 1990, juntaram-se aos músicos para criar uma nova estética e subverter os cânones do cinema.

A busca por uma nova visualidade – mais gráfica e rítimica do que fotográfica e, portanto, mais calcada nas artes plásticas do que no cinema – produziu uma descontrução extrema do conceito de narrativa. Se, em Thriller, o videoclipe queria se parecer mais e mais com o cinema, em Come to Daddy, de Chris Cunningham, busca-se exatamente o oposto. É na década de 1990 que o videoclipe adquire suas características mais marcantes do formato: a montagem rápida, os planos de curtíssima duração e o encavalamento de diversas tomadas dentro do mesmo quadro.

Na década em que o videoclipe atingiu a maturidade, a MTV viu aflorar quatro diretores que mais tarde se tornariam cineastas de sucesso: Chris Cunningham, Spike Jonze, Anton Corbijn e Michel Gondry. Sobre Gondry será falado no próximo capítulo; focaremo-nos, agora, nos outros três diretores.

Tendo a honrosa exceção de Corbijn, todos os outros criadores citados acima têm um singelo detalhe em comum que faz toda a diferença: nasceram no início da década de 1970 e, portanto, são os filhos da primeira geração que cresceu assistindo à MTV. O resultado é um desprendimento das formas cinematográficas até então pensadas e executadas e uma ansiedade e um desprendimento não reprimidos na hora de mostrar as idéias na tela.

Vindo da indústria de animatronics, tendo trabalhado em Alien 3, o inglês Chris Cunningham foca seu trabalho na exploração da anatomia do corpo humano e das máquinas que o cerca. Diz-se, portanto, que o trabalho de Cunningham assemelha-se muito com o do diretor canadense David Cronenberg e do escritor cult J. G. Ballard. A distorção, a criação e a coabitação destas formas de vida híbridas são o fascínio do diretor inglês, que destacou-se criando comerciais de TV.

Em 1997, aceitou o convite do músico Richard D. James (mais conhecido como Aphex Twin) para, junto dele, criar não só um vídeo, mas também uma música que casasse perfeitamente com as imagens. Cunningham também tem um passado musical, principalmente com a cena techno londrina, e aceitou o convite. O resultado é o perturbador Come to Daddy, onde imagens capturadas em vídeo e em película fundem-se harmoniosamente para criar uma parábola aterradora sobre um monstro que sai da tela de uma televisão. Os personagens, sexualmente indefinidos, vão perdendo seus traços e desintegram-se até tornarem-se manchas retorcidas – tudo ao ritmo dos ruídos dissonantes da música de James.

A fauna de seres macabros e pertubadores em Come to Daddy, de Chris Cunningham para o Aphex Twin

Spike Jonze é o diretor de filmes de sucesso como Quero ser John Malkovich e Adaptação – ambos em cima de roteiros de Charlie Kaufman – onde a narrativa desfragmentada e a estética alucinógena lembram demais os videoclipes. Também pudera: Jonze tem em seu currículo mais de 40 clipes, todos para artistas de vanguarda como R.E.M., Björk, Daft Punk, The Chemical Brothers, Yeah Yeah Yeahs, Elastica, Sonic Youth, Beastie Boys, The Breeders, etc.

Seu clipe mais inovador é Praise You, feito para Fatboy Slim em 1998. Jonze, incorporado no seu alter-ego Richard Coufey, é o líder da Torrance Community Dance Group, uma trupe de artistas que faz perfomances em espaços públicos. Eis que uma perfomance do grupo chegou às mãos de Fatboy, que encantou-se com o que viu e chamou Jonze para dirigir seu clipe. Na saída de uma sessão de cinema, Jonze e seu grupo dançam, para surpresa dos clientes do complexo e total desespero do seu dono, a música de Fatboy Slim. O clipe é antológico: era o embrião da ousada série de Jonze, Jackass – que, para além das críticas, revolucionou a maneira de se fazer e de se pensar televisão no início do século.

A estética preto-e-branco e o aspecto blasé das figuras de Corbijn tornaram-se clichês do rock’n'roll. Na foto, Tom Waits

Por último – mas nem de longe menos importante – vale citar o fotógrafo holandês Anton Corbijn. Criador de um estilo de fotografia em preto e branco que contraria os ditames da fotografia de moda & glamour, conferindo um olhar seco e sem produção a seus objetos. As pessoas fotografadas por Corbijn parecem estar distantes de suas vidas diárias. Raramente expressam alguma emoção.

Corbijn dirigiu inúmeros trabalhos dos irlandeses do U2, mas é mais reconhecido como o premiado diretor de Heart Shaped Box, do Nirvana. Sua estética preto e branca com tons de cinza tornou-se tão influente na década de 1990 que foi imitada e copiada à exaustão, tornando-se um dos clichês do rock’n’roll e parte vital da linguagem visual dos videoclipes da década passada.

A CIÊNCIA DOS SONHOS DE MICHEL GONDRY

“Michel Gondry nasceu e cresceu em Versailles, na França, e eventualmente cursou Artes em Paris. Agora, aos seus quarentas anos, seu repertório e fabuloso. Ele inspirou nossa imaginação na forma de comerciais, videoclipes, curtas, longas, e outras mídias. É parcialmente creditado por ter revivido o formato dos clipes na década de 1990. Gondry já foi chamado de gênio por tantas pessoas que fica difícil até de contar”.

É esta a introdução do site The Director-file, dedicado ao trabalho de dois dos cineastas explorados por este trabalho – Chris Cunningham e Michel Gondry. Dificilmente o mundo audiovisual conhece outro diretor que atualmente explore tão bem a estética dos sonhos e o nosso processo mental de imaginação do que Gondry.

Uma fusão total entre som e imagem é o que propõem Gondry em Around the World, do Daft Punk

Seu trabalho tem um quê de infantil: é o olhar que uma criança lança para o mundo ao seu redor. É curioso, colorido e inocente. Gondry nos conta histórias ao mesmo tempo em que nos questiona a nossa definição de realidade. No cinema, seus personagens são humanos até demais: na sua impossibilidade de se comunicar com o mundo lá fora (The Science of Sleep), de serem aceitos (Human Nature) e de aceitarem a si mesmos (Eternal Sunshine of the Spotless Mind).

Na sua vasta produção de videoclipes, Gondry sintetizou tudo o que foi discutido até aqui: a desfragmentação narrativa de Kenneth Anger; o mundo de metáforas de Michael Jackson; a ousadia de Spike Jonze; a técnica cuidadosa de Chris Cunningham e a estética rock’n’roll de Corbijn. Foi além e inovou: trouxe para seu trabalho uma diversidade de cores e sensações que não se encontram em outros trabalhos.

Muitos de seus clipes são casamentos perfeitos entre as duas formas de arte aqui retratadas: a música e o cinema. Em Gondry – e, com maestria, só em Gondry – cada linha musical transforma-se num movimento na tela. Uma batida de bateria eletrônica é um novo elemento visual (Star Guitar, The Chemical Brothers); a linha de um contrabaixo é uma dança (Around the World, Daft Punk).

Como o compositor Pierre Boulez, que aprendeu a lidar com problemas de ritmo musical graças à observação do trabalho do artístia plástico Paul Klee, Gondry conseguiu, com rigor matemático, transformar som em imagem em movimento.

Destruíndo com nossa percepção de espaço (Let Forever Be, The Chemical Brothers) e tempo (Come Into My World, Kylie Minogue), Gondry nos leva a um mundo onírico (Fire on Babylon, Sinéad O’Connor), onde podemos nos encontrar com nossos próprios medos (Everlong¸ Foo Fighters) e esperanças (Human Behaviour, Björk).

O prestígio de Michel Gondry espalhou-se tão rapidamente que logo grandes astros da música pop tornaram-se mais do que clientes, mas colaboradores do francês. Atraiu até gente de respeito e fama consolidados como os Rolling Stones.

Uma de suas habituées, Björk, sintetiza em uma frase, uma música – e um clipe! (Hyperballad) – todo a exploração visual de Gondry: “Como meu corpo soaria / ao bater contra rochas / E quando finalmente aterrissasse / meus olhos encontrariam-se abertos ou fechados?”.


Fonte: Rockvideoclipes